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Dentist Chair Talks

Mamã ... o que é o racismo?

Para os meus doentes mais antigos esta é uma história que de certeza já ouviram ... algures numa consulta daquelas em que não podiam responder porque estavam de boca aberta, mas este blog pretende ser isso mesmo: uma coleção histórias ouvidas na cadeira do dentista!

Há muitos anos (muito anos também não que eu sou tão nova...) tinha o meu filho mais velho uns 4 anos, e a caminho da escola, vínhamos a ouvir no carro as noticias e o locutor falava sobre qualquer coisa relacionada com o racismo.

Em plena “idade dos porquês” ele perguntou-me: “Mamã... o que é o racismo?”. O meu primeiro pensamento foi como era maravilhoso não saber o que é o racismo, mas logo a seguir pensei ... “será que eu quero explicar o racismo? “ e pior... “como vou explicar a uma criança com 4 anos uma coisa tão negativa ... que nem eu mesma entendo como é que, com a evolução da sociedade, ainda é um conceito tão presente nas nossas vidas.

Enfim, lá me enchi de coragem e...

“Mateus, o Racismo é uma coisa tão parva e sem sentido que a mamã não sabe se vai conseguir explicar. Mas vai tentar : imagina que há meninos que não gostam de outros meninos só porque estes têm uma côr de pele diferente ou os olhos rasgados . Consegues acreditar numa coisa tão parva como esta? “ ao que o Mateus respondeu com a indignação que os seus 4 anos lhe permitiam “ A SÉRIO MAMÃ??? ISSO É VERDADE????”

E no banco de trás silêncio, reflexão, olhar no infinito. O que se passaria naquela cabeça tão cheia de perguntas e coisas novas para descobrir? Estaria eu a roubar um pouco da inocência maravilhosa de não conhecer a maldade do mundo? Ou pior, teria ele já assistido a algum tipo de atitude que agora identificasse ?

E ao fim de alguns (imensos) segundos surgiu a resposta : “ Mamã, isso do racismo não dava para mim... eu estava tramado... olha mamã... como é que eu ia fazer? Não podia brincar com o Ruben, com a Jessica , nem com a Jye-He, e eles são tão meus amigos! Ainda bem que eu não sou racista!”

O Mateus teve a felicidade de frequentar o jardim de infância da Universidade de Lisboa, na minha época de aluna e de professora universitária. Havia sempre alunos de doutoramento estrangeiros, de diferentes culturas , que iam passando por ali. Foi incrível para o seu desenvolvimento como pessoa. Eu comi sushi pela primeira vez numa festinha de Natal desta escola (o pai da Jye-He - acho que é assim que se escreve – fazia um sushi incrível que punha os sempre meus croquetes de alheira a um canto!...)

Como é que quase 20 anos depois evoluímos tão pouco? Que bom seria se cada um de nós não conseguisse perceber o racismo... #blacklivesmatter



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