Tratar dos dentes é caro? Caro ... é viver sem eles!
- Dra Clara Panão

- há 16 minutos
- 3 min de leitura
Ao longo dos anos, uma das frases que mais ouço em consulta é: “Dra, eu sei que devia tratar isto, mas fica para mais tarde.” E quase sempre essa frase vem acompanhada de um sorriso tímido, de uma justificação prática ou de um “até já estou habituado”. E a verdade é que as pessoas adaptam-se. Adaptam-se a mastigar de lado, a evitar certos alimentos, a sorrir menos, a falar com mais cuidado. O problema é que, em medicina dentária, adaptar-se nem sempre significa estar bem, muitas vezes significa apenas aprender a viver com algo que não devia ser normal, e sobregarregar o resto.
Quando um ou mais dentes se perdem, o impacto não se limita à estética. Claro que a parte visual pesa, e muito, mas o primeiro efeito acontece na função. Mastigar deixa de ser equilibrado, a força passa a ser distribuída de forma desigual e o corpo começa, silenciosamente, a compensar. Os maxilares trabalham de forma assimétrica, os músculos ficam mais tensos, os dentes que ainda existem passam a suportar cargas para as quais não foram preparados, e movimentam-se para onde não devem... Tudo isto acontece de forma progressiva, quase imperceptível, e é por isso que tantas pessoas dizem “não me dói, não me incomoda, vou adiar”. A ausência de dor imediata cria uma falsa sensação de segurança, quando na realidade o sistema está em esforço constante.
Há também um impacto digestivo que raramente é associado à falta de dentes. Mastigar mal significa engolir alimentos menos triturados, o que sobrecarrega o sistema digestivo e pode contribuir para desconfortos gástricos que ninguém relaciona com a boca. A saúde oral não vive isolada do resto do corpo, e esta ligação é algo que, felizmente, hoje começa a ser mais compreendida, mas ainda muito subestimada.
Depois existe um custo mais silencioso, mas profundamente marcante: o emocional. Vejo pacientes que mudaram a forma como sorriem, que evitam fotografias, que tapam a boca ao rir ou que deixaram de ir a certos eventos porque não se sentem à vontade. E isto não tem nada a ver com vaidade. Um sorriso é uma forma de comunicação, de expressão e de ligação com os outros. Quando ele se perde ou se esconde, perde-se também uma parte da espontaneidade e da confiança. A autoestima vai diminuindo, quase sem darmos conta, até que aquilo que não devia ser normal passa a ser aceite como inevitável.
Há ainda um fator fundamental que muitas pessoas desconhecem: a perda óssea. Sempre que um dente se perde, o osso que o suportava deixa de receber estímulo. Com o tempo, esse osso começa a diminuir, ou como dizem os dentistas a reabsorver. Este processo é natural, mas tem consequências negativas. Quanto mais tempo passa, mais complexo pode tornar-se um futuro tratamento, e opções que antes existiam podem deixar de ser viáveis ou exigir abordagens mais extensas. Adiar nem sempre é uma decisão neutra; em muitos casos, é uma decisão que condiciona o futuro.
Muitos pacientes dizem : “Mas dra, eu já estou habituado, já me adaptei.” E eu respondo sempre com a mesma honestidade: o ser humano adapta-se a quase tudo, até a viver com desconforto. Mas adaptar-se não é sinónimo de estar bem. Não é sinónimo de saúde, nem de qualidade de vida. Hoje, a medicina dentária permite planear soluções seguras, previsíveis e ajustadas a cada pessoa. Os implantes dentários não são apenas uma substituição estética de dentes perdidos; são uma forma de devolver função, estabilidade, conforto e confiança, respeitando o corpo e a individualidade de cada paciente.
O verdadeiro custo de viver sem dentes raramente aparece numa fatura. Ele manifesta-se no dia a dia, nas pequenas limitações que se acumulam, no sorriso que se contém, na decisão que se adia ano após ano. A boa notícia é que, com um bom planeamento, acompanhamento próximo e informação clara, é possível mudar esse cenário com tranquilidade e segurança.
Cuidar do sorriso não é um luxo nem um capricho. É cuidado com a saúde, com o bem-estar e com a forma como vivemos e nos relacionamos com os outros. E poder fazer parte desse processo, poder dar essas soluções aos meus doentes , é o que me faz saír de casa para trabalhar todos os dias







Comentários